<i>Quo Vadis?</i>

Albano Nunes

O que determina a política dos EUA é o sistema de poder

Para onde vão os EUA? Até quando o povo norte-americano continuará a ser vitima da ditadura do capital financeiro e do poderoso complexo militar-industrial que tanto sofrimento tem trazido ao mundo? Não haverá motivos de esperança na capacidade dos trabalhadores e do povo deste grande país para se libertarem do domínio da oligarquia financeira e impor uma política respeitadora da soberania dos povos e orientada para o desarmamento e a paz? E no curto prazo o que é legítimo esperar?

A três meses das eleições presidenciais norte-americanas pode dar-se como certo que a avassaladora mediatização planetária das «primárias» vai continuar e mesmo intensificar-se, não porque se espere um debate clarificador em torno das principais questões que envolvem grandes responsabilidades dos EUA no plano internacional, mas para nos distrair delas e projectar uma errónea percepção dos EUA como bastião da democracia e potência «protectora» indispensável. É necessário combater esta perigosa pretensão de induzir uma cultura de vassalagem ao imperialismo norte-americano. Mas é sobretudo necessário identificar, por detrás do deprimente show propagandístico que há meses ocupa as primeiras páginas da comunicação social em todo o mundo os sinais de crescente resistência popular à classe dominante.

Aquilo que mais merece ser salientado é que, embora por motivos diversos e por vezes contraditórios, se verifica uma onda de rejeição dos candidatos do establishment o que, traduzindo grande descontentamento perante o aprofundamento das injustiças e desigualdades sociais na sociedade norte-americana e crescente desconfiança em relação à oligarquia financeira, representa um sério abanão na credibilidade de um sistema político assente num regime de autêntico «partido único» em que «Republicanos» e «Democratas» repartem o poder. Trump não era à partida o candidato preferido pela liderança do Partido Republicano, mas colocando-se demagogicamente numa posição «anti-sistema» conseguiu federar descontentamentos diversos, numa versão americana do que tem acontecido na Europa com o ascenso de forças xenófobas e fascistas. Por seu lado, Hillary Clinton passou à recta. Bernie Sanders, com uma mensagem social-democratizante e apoiado militantemente por sectores anti-capitalistas, só não terá vencido porque foi claramente descriminado pelo aparelho do Partido Democrático. Esta forte corrente anti establishment abre perspectivas de mudança que tarde ou cedo acabarão por vingar. Tudo dependerá da capacidade dos comunistas e outras forças realmente progressistas que, entretanto, se encontram ainda debilitadas.

E no imediato que pode esperar-se destas eleições que a comunicação social dominante apresenta como uma escolha entre o céu e o inferno? Embora o que determina a política dos EUA seja o seu sistema de poder dominado pelos grandes grupos económicos, não é indiferente o perfil do seu Presidente. Quanto a Trump diz muito da natureza do sistema político norte-americano que uma tal criatura possa ter chegado onde chegou. E Hillary Clinton, cujo historial de falcão agressivo é bem conhecido (ver Hillary Clinton rainha do caos, edições «página a página») e que é apoiada pela Wall Street e pelo complexo militar-industrial? Que ninguém espere uma inversão da política militarista e agressiva dos EUA. Pelo contrário. Tanto mais quando o apoio de Sanders a Clinton (que muitos dos seus apoiantes viram como uma traição) branqueia o seu reaccionarismo e a sua disputa com Trump lhe dá uma enganadora áurea de humanista e democrata.




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